Louca, bagunçada, ciumenta, amorosa, problemática: cada um tem a sua.
Sempre achei que a minha família fosse a mais intensa em tudo. Sempre achei que a minha mãe fosse a mãe a mais exagerada, a minha tia mais paqueradora e o meu tio mais brincalhão. Sempre achei que a minha família fosse a única no mundo que brigasse, que chorasse e que depois fizesse as pazes. Por não sair do meu próprio mundo, nunca consegui olhar a minha família de fora.
Pois bem, há 30 dias, até o dia de hoje, eu consegui. E tive uma das melhores descobertas da minha vida: que família incrível que eu tenho!
Fui parar em uma casa com pessoas extremamente diferentes de mim. Nossa, que choque! Como pais e filhos podem se odiar tanto? Como é possível uma mãe gritar mais que a minha? Por ainda ser imatura e não saber lidar direito com a situação, liguei imediatamente para a minha mãe. “Oi, filha!!”, foi o que eu precisei para desabar. Bateu a maior saudades do mundo e um desespero por estar completamente sozinha. Na hora comecei a chorar e contei o que estava passando. Obvio que com os sentimentos a flor da pele, a história parecia muito pior do que realmente era. Descrevi a dona da casa como uma perfeita bruxa, até parecia um conto infantil. Meus pais se desesperaram, falaram para eu me fechar no meu quarto e não sair mais. Obvio! Muito mais fácil poupar meu sofrimento do que me ouvir chorar à kms de distância sem poder fazer nada. Num primeiro instante, achei que a solução fosse me trancar mesmo. Mas graças a muita terapia, fui enfrentar a vida e meu novo desafio. Foi esquisito no começo, tive que lidar com meus medos, pânicos e principalmente com a saudades. Me descobri uma nova Juliana, mais madura e mais humana. Comecei a enxergar aquelas pessoas de uma maneira diferente. Poxa, será que se alguém entrasse na minha casa, iria achar minha família muito normal? A questão é que eu entrei diretamente na intimidade deles, na rotina, no dia-a-dia. A casa não era minha, os filhos não eram meus. Foi então que a minha cabeça se abriu. Passei a amá-los com toda a sinceridade. Dei muito amor pra todos e recebi muito amor de volta. Percebi que o mundo não é feito só de Vera, Marcos, Cida e Zé Carlos. A vida é feita de todo tipo de gente, e graças a Deus! A diversidade é importante para o crescimento, para novos olhares de mundo! Que bom que existe gente diferente da gente! Que bom que eu cai de paraquedas em uma família diferente da minha.
Após esse curto mas longo período de aprendizado, minha mãe me dá a pior notícia da minha vida: seu avô tá mal. A minha primeira reação foi o desespero. Queria sair correndo e pegar o primeiro avião de volta pra São Paulo. Já que a minha consciência não me barrou, meus pais me barraram. “Não Ju, não adianta se desesperar agora. Vamos aguardar”. Foi a pior noite da minha vida. Queria dar um beijo nele, conversar com ele, perguntar coisas que nunca perguntei antes, como qual é a sua cor predileta ou sua música preferida. Não podia! Estava do outro lado do planeta, completamente sozinha. De novo, tive que lidar com isso. Tive que respirar, ir ao banheiro depois de muita dor de barriga e estômago e entender que naquele momento não havia nada que eu pudesse fazer.
No dia seguinte, após saber que ele estava muito pior, decidi junto com os meus pais que iria voltar antes pra casa. Obviamente todos moveram montanhas para o meu desejo mas tudo bem, eu aceito ser chamada de mimada por isso. Não aguentaria ficar longe querendo estar perto.
Foi então, diante dessa confusão, que eu percebi o quanto a minha família é única. Nesse momento de dor, todos estavam ali, juntos, se apoiando. Fiquei orgulhosa de fazer parte disso. Foi diante de um grande desafio que eu aprendi que por mais que a minha mãe grite com o meu pai ou faça barulho domingo de manhã, eu sou a pessoa mais sortuda por tê-los todos os dias do meu lado.
Agradeço à vocês, meus amores, por todo amor que vocês me dão todos os dias. Agradeço aos bens materiais mas felizmente, não é isso que fica. O amor é eterno e infinito. Vai além da existência humana, passando por nossas almas durante todo o nosso período espiritual.
Vocês são a minha alegria de viver! Superaremos mais esse desafio juntos, se amando como sempre nos amamos.
Um beijo,
Ju"
Escrevi esse texto para a minha família quando eu estava vindo de Londres para São Paulo. E de fato, eles são e sempre serão tudo pra mim. Deus me privilegiou e o mínimo que eu posso fazer é agradecer.
Com pessoas tão especiais perto de mim, qualquer desafio se torna apenas um desafio.
Boa noite!
Juliana.
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